Povo Malinké

Por | 1 de agosto de 2014 às 0:14 | Sem Comentários | Pesquisa | Tags: ,

Entre materiais antigos guardados em uma pasta, encontrei textos muito interessantes que fundamentaram meus estudos durante os primeiros contatos com a dança e percussão afro junto ao grupo Abayomi. Muitos desses textos foram repassados pela professora Simone Fortes aos alunos da oficina de dança, lá em meados de 2009, com a preocupação que tivéssemos um entendimento mais amplo sobre a cultura do djembé, da dança e do povo Malinké, além da compreensão sobre a importância de se trabalhar com a dança afro, sua arte e história nos dias atuais aqui no sul do Brasil.

Entre alguns dos papeis que vasculhei, encontrei um texto de autoria de Pedro Mendes cujo relato apresenta uma breve história sobre o povo Malinké e, posteriormente, um outro texto sobre a história política da Guiné. Tentarei, portanto, compilar seus escritos aqui para que seja possível elucidar um relato conciso e pertinente sobre o tema.

Muitas pessoas que se interessam pelo djembé e seus ritmos não fazem ideia do valor cultural e das especificidades e complexidades sociais e políticas que sustentam sua história. Os ritmos do povo Malinké não estão apenas ligados a uma rica cultura, eles também contam a história dela. No entanto, a percussão africana ainda apresenta um conceito estereotipado na grande maioria das mentes ocidentais pelo fato dos ritmos tocarem as pessoas em um nível físico-sensorial fora da normalidade. Muitos dos seus ritmos que são tocados hoje são realmente muito antigos e suas idades exatas são difíceis de serem definidas, uma vez que a tradição oral dos mesmos não especifica datas mas, sim, refere-se aos eventos aos quais eles estão ligados.

Uma breve história

Os Wankanara foram os primeiros habitantes da área onde, mais tarde, o Império Mandingue se estabeleceria. Eles chegaram no local por volta do ano de 2.700 a.C, vindos das margens do rio Nilo e expulsando os Pigmeus que ali viviam. Mais tarde, por volta de 760 a.C, um Estado Federal chamado Oudouma foi formado, que significa “Região das Celebrações Noturnas”. Posteriormente, Oudouma foi anexada ao império Gana (diferente do país Ghana atual) e, após o declínio desse império, foi formado o Império Mali, pelos Malinké, também chamados de Mandingue. Os países atuais que fazem parte desse império são: Mali, Guiné, Burkina Faso, Costa do Marfim, Serra Leoa, Libéria, Gâmbia e Senegal.

Fonte: pt.wikibooks.org

Imagem: pt.wikibooks.org

Reis como Soundjata Keita tornaram-se muito conhecidos. No ano de 1235 ele expandiu o império de maneira grandiosa e construiu a capital Niani, que quer dizer “Aquela Sem Falhas” (hoje, Niani é uma vila sem muita importância política perto da fronteira com Mali), onde também residiu o grande imperador Mansa Mussa, cuja reputação alcançou até os países da Europa.

Historiadores falam de palácios com jardins, lindas vestimentas de veludo e seda, montantes de ouro e grandes banquetes. No entanto, o que igualmente impressionou aos estudiosos foi sua organização social, o sistema judicial, a magnífica arquitetura e o altíssimo nível cultural geral do império. Porém, a riqueza de Mali foi diminuindo pelas frequentes guerras e também por algumas de suas províncias mais distantes terem começado a adquirir independência. Após a metade do século XV, o império de Mali foi sendo incorporado gradualmente ao império Songhay e, por volta da mesma época, os portugueses começaram a abarcar na costa oeste africana interrompendo com a relação comercial pacífica que perdurara centenas de séculos entre África, Índia, América do Sul e Ásia antes da chegada dos europeus.

Imperador Mansa Mussa, século XIV

Imperador Mansa Mussa, século XIV, reconhecido como o homem mais rico da história.

Esses cristão europeus – assim como o autor do texto os descreve – encontraram incríveis tesouros como ouro, marfim, pedras preciosas, joias e artefatos artísticos, entre outros artigos, e iniciaram uma exploração inescrupulosa ao povo nativo. Enquanto a manutenção das (relativamente bem tratadas) casas de escravos e o trabalho forçado eram comuns aos reinados africanos, o comércio dos escravos africanos na costa oeste, conduzidos pelos europeus, foi totalmente diferente. De 1448 até 1880, milhões de africanos foram deportados e regiões inteiras despopularizadas, além do conhecimento e tradições locais destruídos. Hoje, portanto, os Malinké são, basicamente (além de grandes artistas), comerciantes e fazendeiros que trabalham com várias especiarias como arroz, milho, mandioca, batata doce, entre outras. Nas regiões rurais da Guiné a vida é pobre e com difícil acesso às maiores cidades mas, em sua maioria, baseada em um estilo de vida tradicional, assim como em algumas regiões similares da porção oeste do continente.

Aldeia de Benegba, Guiné, 2013. Foto: Simone Fortes

Aldeia de Benegba, Guiné, 2013. Foto: Simone Fortes

Por outro lado, a capital Conakry sofre com as “bençãos da civilização” ao tirar as raízes do povo de uma maneira caótica. Apesar de tudo isso, o povo Malinké continua cantando, dançando e tocando alegremente, com muita força e vitalidade. Artisticamente, eles se destacam como um dos povos mais criativos, não apenas do continente africano mas de todo o resto do globo, pois possuem uma das músicas mais belas do mundo e que se renova sem perder a identidade.

Quando conhecemos o pano de fundo histórico, político e cultural dos Malinké é muito mais fácil compreender o seu universo musical com todas as complexidades de ritmos, danças, instrumentos e performances, que tem relação direta aos hábitos, rituais e demais eventos sociais. E quanto mais pudermos nos aproximar de suas fontes e enriquecer nossas pesquisas, maior é nossa compreensão também da nossa própria história enquanto assimiladores e reprodutores de uma outra cultura, além da capacidade de recriação e desdobramento da dança e música afro em nossos próprios corpos e universos, assumindo nossa própria identidade.

Uma oportunidade que a América Latina e, mais especificamente, Florianópolis terão de “beber direto da fonte” mais uma vez será na terceira edição do Stage Camp África Raíces, em fevereiro de 2015. O evento se consiste em uma vivência/ acampamento que trará sete mestres africanos para cursos de dança, percussão e canto, além de festividades tradicionais africanas e locais, conglomeradas em uma semana de imersão na praia do Rio Vermelho, em Florianópolis. Para conhecer melhor o evento e fazer a sua inscrição (ainda) na pré-venda, clique aqui.

Wongai!

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