A dança afro em Florianópolis

Por | 6 de maio de 2014 às 12:36 | 2 Comentários | Pesquisa | Tags: , ,

Comparada a outras regiões do país, Florianópolis não é uma cidade brasileira que se caracteriza pelo seu predomínio de tradições africanas. Foi apenas com a colonização açoriana, a partir do século XVIII, que surgiram os interesses em aproveitar os escravos trazidos da Bahia, Rio de Janeiro e da própria África, resultando na chegada dos afro-descendentes no estado de Santa Catarina.

Em registro, logo “após abolição” as participações afro nas atividades e manifestações culturais foram proibidas em todo o Brasil, inclusive em Florianópolis, segundo o mandato copiado abaixo:

“São prohibido daqui em diante os ajuntamentos de escravos ou libertos, para formar danças ou batuques, ficando inteiramente prohibidos os referentes ajuntamentos de supostos Reinados Africanos que pelas festas costumam fazer encomodando os Povos e prejudicando os seus Senhores com semelhantes funções” (Postura Municipal de 1831, apud FORTES, 2008, p.10).

Essas posturas de discriminação nunca foram muito obedecidas mas, ainda sim, dificultavam as manifestações das expressões de cultura afro aqui na região. Por muito tempo, o Cacumbi fez parte do cenário da capital mas que posteriormente desapareceu. Já o samba, até hoje possui bastante apoio das instituições governamentais assim como as práticas de capoeira que, dentre as expressões culturais afro-descendentes em todo o país, foi a que mais se estruturou na formação de grupos, saberes e métodos.

Mandiani (ou Mendiani): dança mailnké realizada por meninas durante as cerimônias de casamento e circuncisão. Decock, Jean. 1968. "Pré-Théâtre et Rituel: National Folk Troupe of Mali." African Arts 1 (3): 31-7.

Mandiani (ou Mendiani): dança mailnké realizada por meninas durante as cerimônias de casamento e circuncisão. Decock, Jean. 1968. “Pré-Théâtre et Rituel: National Folk Troupe of Mali.” African Arts 1 (3): 31-7.

Mas falar de dança afro é tratar de muitas derivações e variações porque é uma dança de caráter heterogêneo e plural. No contexto de Florianópolis, existe uma narrativa histórica sobre suas “contaminações” (no sentido da propagação de uma informação de maneira exponencial), onde as experiências dessa rede iniciaram-se em 1995 com as danças populares afro-brasileiras, focadas no nordeste primeiramente. As professoras de dança Cintia Paula Lopez (Cíntia Abadá) e Aldelice Braga (Nega) foram uma das pioneiras a dar aulas de dança afro na cidade, acompanhadas pelos percussionistas Gerry Costa e Nicolas Malhomme até que, por volta dos anos 2000, Ana Paula Cardoso e Gisele Solla iniciaram as práticas de ensino em dança afro, cujo foco do trabalho eram as danças afro-brasileiras e, posteriormente, forneceram uma introdução às danças malinkês, desenvolvidas a partir de pesquisas de uma parte da cultura da Guiné entre outras regiões ao redor.

Fanta Konatê e Luis Kinugawa. Fonte: www.fantakonate.com.

Fanta Konatê e Luis Kinugawa. Fonte: www.fantakonate.com.

Nessa época, elas possibilitaram a vinda da bailarina Fanta Konatê e do músico Luis Kinugawa, residentes em São Paulo ainda hoje, para ministrarem cursos de dança e ritmos da Guiné. Konatê e Kinugawa desde então já possuíam o intuito de disseminar e expandir a cultura malinkê pelo Brasil que, desde 2003 através da ONG Africa Viva, eles viabilizam “o desenvolvimento humano e a melhoria da qualidade de vida através da arte, educação, musicoterapia, permacultura e do trabalho humanitário, pesquisando, preservando e promovendo culturas do Oeste Africano e as heranças da diáspora”.

Através desse panorama, Simone Fortes (2008) coloca a compreensão sobre a dança afro na ilha de Santa Catarina da seguinte forma:

“(…) a dança afro florescerá e efervescerá na cidade contanto inicialmente com disposições de “apropriação de linguagem” (neste caso de dança) de uma cultura de deslocamento (…). Em Florianópolis, todos estes conhecimentos que sugerem o nomear de dança afro foram (e são) desenvolvidos a partir de aulas.”

Abayomi - Intervenção na UFSC, novembro de 2010.

Abayomi – Intervenção na UFSC, novembro de 2010.

Em meados dos anos 90, a dança afro que foi se recriando em Florianópolis enfatizava um circuito intercambiante, cujas informações dos que se propuseram a ensinar e trabalhar essas danças reagiram em corpos que nunca ou pouco tiveram acesso ao tipo de linguagem das danças afro-brasileiras neste período. A partir desta condição, surgiram variações e diversos experimentos em danças (cultura) popular brasileira para desenvolver conhecimentos nas mesmas.

Isto quer dizer que, em Florianópolis, a prática em relação às danças oriundas de tradições africanas acontecem de forma dinâmica, uma vez que existe um constante trânsito na formação desses conhecimentos. Ao enfatizar os processos de contaminação, a dança não representa uma estrutura fixa mas transita pela alegria inerente às formas de como brincam os corpos, resultando sempre em novas configurações.

Corpo em Trânsito - ensaios no Fundação Cultural Simposium

Abayomi – Projeto Corpo em Trânsito. Ensaios da Fundação Simpozio.

O tema sobre o trânsito de culturas foi a abordagem principal do projeto “Corpo em Trânsito”, do Abayomi, contemplado em 2012 pelo edital do Fundo Municipal de Florianópolis. Este projeto foi uma proposta de intervenção da dança e música de matriz africana em locais não oficialmente consagrados à arte (ruas, praças, escolas, espaços públicos), criando novos espaços de circulação na tentativa de driblar a escassez de acesso à arte na cidade de Florianópolis. Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

Djanko Camara ministrando oficina de dança na Lagoa do Peri, Florianópolis, em maio de 2013.

Djanko Camara ministrando oficina de dança na Lagoa do Peri, Florianópolis, em maio de 2013. Foto: Nó Cultural.

Hoje, a dança afro em Florianópolis vive um momento de grande expansão. Nunca se teve tantas aulas, oficinas e entusiastas da música e dança afro como se vê atualmente. Desde 2009, o grupo Abayomi vem fortalecendo laços e abrindo espaços de criação enquanto grupo artístico independente, e sua trajetória contribuiu (e ainda contribui) para o fomento e disseminação da cultura afro na ilha. Desde novembro de 2011, quando o grupo trouxe o senegalês Modou Diatta para ministrar oficinas de dança e percussão e celebrar a primeira edição da festa Wassa Wassa, as parcerias com mestres africanos não parou mais. Desde então, o Abayomi possibilitou a vinda de Djara Conde, Djanko Camara, Mariama Camara e Bangaly Konaté, além das vindas periódicas de Luis Kinugawa e Fanta Konatê. Agora, em 2014, o Abayomi traça uma nova trajetória em parceria com Djanko Camara e Africa Raíces, produtora chilena que realizou em fevereiro deste ano em Florianópolis, com produção local do Abayomi, o “II Stage Camp Afro Raíces”, que além de Djanko como professor, recebeu Babara Bangoura e Maimouna Bangoura em 8 dias de vivência e oficinas. E firmando essa parceria mais ainda, no dia 18 de maio estréia na Virada Cultural de São Paulo, o espetáculo em processo “África em Nó(s)” e em fevereiro de 2015, a terceira edição do Stage Camp Afro Raíces em Florianópolis.

É a dança afro florescendo e efervescendo na cidade. Com certeza, temos o entusiasmo como motor da vida mas isso tudo é resultado daqueles que trabalham diariamente com a arte, que lutam pela resistência da cultura e que não se deixam esmorecer pela falta de apoio. Através do trabalho colaborativo, construímos estado de presença, relações afetivas e uma história de vida.

(Referência: FORTES, Simone. Transbordamentos: Danças ‘Afro’ em Florianópolis. Florianópolis, 2008. Trabalho de Conclusão de Curso (Artes Visuais) – CEART, Universidade do Estado de Santa Catarina.)

2 Comentários

  1. Gabriel Siqueira (3 anos atrás)

    Muito bom artigo!

    Achei que faltou mencionar o Bando Árvore Sagrada, que inspirou a arte e a cultura afro-brasileira em Floripa de 2005 a 2009. Alguns links sobre o grupo que podem contribuir com o assunto:

    Blog do Árvore Sagrada:
    http://arvoresagrada.blogspot.com.br/

    Trabalho acadêmico sobre autogestão e o bando Árvore Sagrada:
    http://www.irradiandoluz.com.br/2010/08/consenso-e-racionalidade-substantiva.html

    Video com uma cena do espetáculo musical:
    https://www.facebook.com/photo.php?v=10203264577400238

  2. Gabriela Flor (3 anos atrás)

    Bonito trabalho. Mas achei um tanto injusto que Maria Aparecida Gonzaga (Xuxu) não tenha sido mencionada, já que trabalhava com a dança – afro muito antes das professoras citadas. Não sei se ela é a pioneira, mas com certeza começou antes dos anos 90. Eu mesma já fazia aulas com ela de afro em 93…

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