Abayomi na África

Por | 25 de março de 2017 às 20:41 | Sem Comentários | Destaque, Pesquisa | Tags: , , , , ,

Entre os dias 18 de dezembro de 2015 e 28 de janeiro de 2016, oito integrantes do coletivo Abayomi estiveram em solos guineanos. Um dos países berço da cultura da dança e da percussão trabalhadas e estudadas pelo grupo, a Guiné (Conacri) é o país de origem de grandes artistas que hoje se espalham por todos os cantos do mundo, compartilhando suas coreografias e toques com um número cada vez maior de interessados nessa rica vivência/experiência, baseada em tradições ritualísticas ancestrais. Não são poucos os artistas que continuam vivendo na Guiné, seja na capital Conacri ou em cidades mais interioranas – e isso pudemos vivenciar de perto ao longo de nossa estadia de 3 semanas na capital e uma semana em Faranah, vilarejo de origem dos nossos professores e amigos Djanko Camara e Sekouba Oulare, que hoje moram aqui em Florianópolis.

A possibilidade de irmos para lá surgiu com a divulgação do edital de Intercâmbio do Ministério da Cultura, que tem por objetivo promover a difusão e o intercâmbio cultural nas diversas áreas e linguagens artístico-culturais, a disseminação dos saberes populares e tradicionais e a capacitação técnica de agentes culturais. A relevância  para com o projeto que tínhamos em curso ao longo dos anos de 2015 e 2016 no âmbito estadual, intitulado Ainikê , fortaleceu nossa justificativa, tendo a viagem o objetivo de investigação da cultura das etnias do oeste africano, principalmente a Malinke. Um dos focos dessa pesquisa foi a própria corporeidade desses povos, seus costumes e tradições, fundamentos que inspiram as composições cênicas autorais do grupo.  

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Para a viagem, e toda a logística envolvida, contamos com o apoio do curso organizado anualmente pela instituição África Raíces, que fornece a estrutura necessária para se vivenciar um mês de aulas diárias de dança e percussão, além de participação em ensaios de balés africanos de grande renome como o Ballet Nacional Djoliba, participação em eventos culturais e visitas à alguns pontos turísticos como a ilha de Room e os grandes mercados da cidade. O curso incluía também uma semana de estadia no vilarejo de Faranah.

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Tivemos aulas diárias de dança e percussão na própria casa em que estávamos hospedados, que era também onde acontecia a maior parte da convivência entre os participantes do curso e os professores e moradores fixos. Era onde nos alimentávamos, onde fazíamos nossas festas (várias embaladas por uma boa roda de coco com grande participação das crianças, que inclusive aprenderam o coro de algumas músicas), onde aprendemos um pouco sobre os costumes, a religião, os horários em que eles rezavam (momento em que não nos era permitido tocar instrumentos), o modo de se fazer a comida, o modo de se alimentar. Ali mesmo, na própria casa (nosso porto seguro na cidade que por vezes pode ser bem caótica), vivenciamos muitos aspectos culturais desse povo de uma energia e força de vida indescritível, que não se deixa abalar pelas condições que muitas vezes não são fáceis.

A semana que passamos em Faranah contrasta com a rotina mais conturbada que tínhamos na capital. O clima era outro e o tempo das coisas também. A uma caminhada de distância da casa da família Oulare (onde ficamos hospedados), estava o Rio Djoliba (mais conhecido como Níger), um curso d’água muito importante para toda a região que atravessa nos seus mais de 4 mil km de extensão. Todo dia tomávamos banho nele, sempre despertando muita curiosidade por parte das crianças e das diversas mulheres que utilizavam o rio para lavar roupas.

Lá tínhamos aulas diárias de percussão e de dança com membros da família Oulare, alguns discípulos diretos do grande percussionista Fadouba Oulare. A aprendizagem foi intensa nesses dias e em pouco tempo nós nos sentíamos em casa, muito bem acolhidos e estreitando os laços de amizade. Em Faranah, nós presenciamos o nosso primeiro Dembadon (festa que antecede o casamento) e foi um dos pontos altos da nossa estadia. Muito emocionante a vibração que sentimos naquele momento, ao se deparar com uma enorme roda de mulheres de diversas idades, todas elegantes, com roupas feitas dos mais diversos tecidos, celebrando e dançando ao som dos tambores, passou a fazer mais sentido todos os anos de estudos no Brasil.

De volta à Conacri, já mais habituados com os caminhos da cidade, começamos a conhecer um pouco melhor o movimento cultural. Fomos assistir apresentações de ballets e festivais de grupos artísticos. Participamos dos dunumbas de rua que acontecem frequentemente e de outros Dembadons, assim como o Sabar, outra festa relacionada ao casamento. Fomos visitar o grande percussionista Famoudou Konate, que nos convidou para conversar em sua casa no intervalo de seu curso de percussão e posteriormente tivemos algumas aulas de percussão com seu filho Billy Konate. Fomos à casa do famoso dançarino Youssouf Koumbassa ter aulas de dança. Assistimos ao show do músico Salif Keita em um grande teatro da cidade e assistimos bandas locais tocar em bares. Conacri foi se revelando para nós, com os táxis, que fazem a maior parte do transporte das pessoas, nós íamos conhecendo pouco a pouco os bairros, as ruas e entendendo um pouco melhor o funcionamento das coisas. Tivemos o privilégio de conhecer um atelier de construção de instrumentos, liderado pelo mestre artesão Almamy Camara, onde pudemos escolher as madeiras, os desenhos e tamanhos dos tambores que queríamos trazer para o Brasil. Acompanhamos o processo desde a matéria bruta até o acabamento, sendo feito pelas mãos de artesãos incríveis, utilizando somente ferramentas manuais rústicas. Também conhecemos o Centre des Arts Acrobatiques Keita Fodéba, um centro de formação de jovens acrobatas. Além das aulas experimentais, assistimos a uma apresentação que foi movida pelos ritmos afro cheios de convenções, acompanhando os números que iam desde o tecido acrobático até as acrobacias de solo, passando pelos malabarismos.

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Tivemos também um certo protagonismo diplomático em nossa estadia, ao visitar a embaixada brasileira na Guiné. A princípio, fomos para conversar sobre possíveis parcerias e estreitamento da relação entre os dois países, através de ações culturais que valorizassem a arte de origem africana. Porém, fomos convidados pelo embaixador em exercício, o Sr. Alírio de Oliveira, a nos apresentar na residência da embaixada, onde estariam presentes outros embaixadores, a comunidade brasileira residente e amigos que convidamos a prestigiar e participar. Acabou sendo uma grande festa de confraternização, com muita dança e música. Preparamos uma apresentação que mesclou nosso trabalho de danças e ritmos afro-brasileiros com as de origem Malinke, contando com a participação dos professores que fizeram questão de que apresentássemos aquilo que vínhamos aprendendo nas aulas.

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Difícil descrever as sensações que sentimos estando num país como a Guiné, um lugar de muitos contrastes. Formado por diversos grupos étnicos, teve sua independência da França em 1958, seguida de uma ditadura de caráter socialista de partido único liderada pelo presidente Sékou Touré, da etnia Malinke, e que investiu muito no desenvolvimento dos grupos artísticos, como os grandes Ballets, como forma de valorização e divulgação de sua cultura sob um viés nacionalista. Os artistas se engajaram com esses grupos de uma forma rigorosa, com ensaios e treinamentos constantes resultando em dançarinos e percussionistas muito virtuosos. A fonte de inspiração para a composição cênica desses grupos são os costumes ritualísticos, os ritmos e coreografias ancestrais, as lendas e histórias típicas de cada etnia e as festividades que aconteciam e acontecem nas aldeias e vilas do interior do país. Uma riqueza cultural enorme que parece transbordar em toda parte, advinda de diversos grupos étnicos, sendo os três principais os Fula, Malinke e Susu, cada qual com suas próprias características culturais e línguas diferentes. A estrutura da cidade de Conacri (população de mais de um milhão e meio de habitantes) é um tanto quanto bagunçada, tendo a distribuição de energia elétrica para os principais bairros chegado a poucos anos, água encanada muito restrita aos bairros de maior poder aquisitivo e a coleta de lixo muito precária. E no meio disso tudo, um povo lindo, que esbanja alegria, cores, arte, que batalha para conseguir estudar, para conseguir emprego, que possui um senso de fraternidade muito elevado.

Convivendo muito próximo de nós ao longo da estadia estiveram pessoas maravilhosas que não poderíamos deixar de lembrar: M’mahawa, Tombé e Alay que deram um super apoio ao longo de todos os dias, nossos professores de percussão Kalaban e Sekou, as professoras de dança Mabinty e Aminata e o nosso querido Djanko, o amigo motorista Ibrahima (Dis). Em Faranah, a família Oulare: Namissa, Sekouba, Sayon, Petit Sayon, Mamady, Fode e Ousman. O luthier Mamy. Difícil citar todos que fizeram a nossa experiência na Guiné ser tão especial. Somos muito agradecidos.

Esta publicação tem também o objetivo de agradecer os familiares e amigos que apoiaram a nossa viagem, através do financiamento coletivo que organizamos com intuito de ajudar nos custos. Além do dinheiro que foi investido, o apoio de vocês nos estimulou ao nos fazer sentir e perceber que muitos se identificam com essa nossa caminhada e apoia esse movimento. Então fica aqui o nosso profundo agradecimento à:

  • Alan Gaskill
  • Aline Sanfelici
  • Ana Brancher
  • Analice Ohashi
  • André Aguilar
  • André Farias
  • André FM
  • Andressa Ocker
  • Camila Claudino
  • Carine Cascais
  • Carla Juliana
  • Carolina Cezari
  • Carolina Mângia
  • Caroline Garlet
  • Clicia Maria
  • Daniel Augusto
  • Didi Levy
  • Elisa Maria
  • Fabian Saccomori
  • Flavia Castro
  • Flavia Vidal
  • Gabriel Santiago
  • Giseli Mori
  • Guilherme Mattos
  • Iara Machado
  • José Verzola
  • Juampi Carranza
  • Liliane Regina
  • Lito Levy
  • Lorena Nascimento
  • Louise Goranssoni
  • Lourdes Salette
  • Luciano Maykot
  • Marcelo Filippini
  • Marcelo Levy
  • Marcelo Pena
  • Marcio da Costa
  • Maria Dias
  • Maria Luiza
  • Marina Levy
  • Patricia dos Santos
  • Paula S. Thiago
  • Paulo Levy
  • Priscilla Dias
  • Regina Elizabeth
  • Rodrigo Jorge
  • Rosangela Alves
  • Solange S. Thiago
  • Suêile Lima
  • Tainá Silva
  • Talita Macedo
  • Tiago Chaves
  • Vanessa Camassola
  • Vanessa Oliveira

Desde a nossa volta para Florianópolis muita coisa aconteceu, já se passou um ano, mas as sensações continuam muito vivas em nós. O movimento afro em Floripa só aumenta, hoje temos o privilégio de ter dois grandes professores morando aqui com a gente, o Djanko Camara e o Sekouba Oulare, que tem nos ensinado tanto dessa cultura que valoriza a alegria de viver, o momento presente, a determinação, o companheirismo, a se ter força nos momentos difíceis, a vida em coletividade, aspectos rotineiros de nossa vida que parecem ser tão importantes nos dias atuais. A dança junto com a percussão tem esse poder especial de juntar pessoas em torno de um momento, no qual a responsabilidade dele acontecer está sobre quem está ali, a liberdade é muito grande e te coloca no presente, nesse lapso do tempo que uma hora passa e se repetirá em outra oportunidade, porém, sempre nos deixa alguma bagagem, que acabamos por carregar conosco. Nos resta apenas agradecer aos ancestrais que construíram e carregaram todo esse conhecimento, o botaram em prática, viveram e transmitiram essa energia que hoje chega até nós e nos transforma e empodera para resistir de alguma forma às tantas opressões que existem em nossa sociedade.  Os tambores não vão se calar.

Desejamos um bom 2017 para todos, que seja mais um ano de evolução, de aprendizagem e de busca pela paz interna e coletiva, muito axé!   

Diogo Costa, Edu Baldan, Erik Dijkstra, Gabriella Souza, Max Levy, Renata Mazer, Roberta Alencar e Simone Fortes.

 

*Fotos de Diogo Costa, Erik Dijkstra e Max Levy

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